Não é exagero. É método.
o discurso que parece absurdo hoje define o mundo de amanhã
A linguagem não exagera por acidente. Ela exagera porque precisa. Não para descrever melhor o mundo, mas para reorganizá-lo. O que costuma ser tratado como distorção — a hipérbole, o excesso, o absurdo — é, na verdade, um dos mecanismos mais eficientes de produção de realidade. O erro aqui não está no discurso. Está na forma como ele é recebido: como se fosse apenas fala, quando, na prática, opera como ação.
Há uma ingenuidade confortável em tratar certas afirmações como “claramente exageradas”. Como se o exagero anulasse seus efeitos. Como se o absurdo, por si só, fosse incapaz de produzir consequências. Essa leitura falha porque parte de um pressuposto falso: o de que o discurso precisa ser acreditado para funcionar. Não precisa. O discurso precisa apenas circular. Precisa apenas não ser enfrentado. Precisa apenas encontrar um ambiente onde não haja custo em dizê-lo.
É nesse ponto que o problema se revela com nitidez. A linguagem não depende da adesão racional para produzir efeitos. Ela depende de identificação. Não se trata, antes de tudo, de convencer alguém de algo verdadeiro. Trata-se de fazer com que alguém se reconheça no que está sendo dito, mesmo quando o conteúdo é frágil, contraditório ou abertamente absurdo. A força do discurso não está na sua verdade. Está na sua capacidade de organizar pertencimento.
E é aqui que a questão deixa de ser linguística e se torna política. Quando o absurdo circula sem resistência, ele deixa de ser percebido como absurdo. Quando a hipérbole não encontra limite, ela redefine o campo do possível. O que antes soava impensável passa a operar como uma alternativa legítima. Não porque foi demonstrado, mas porque foi dito — repetido — tolerado.
O ponto, portanto, não é corrigir o exagero. É reconhecer o que ele produz. Porque toda vez que um discurso é tratado como “apenas retórico”, alguém está sendo liberado da responsabilidade por aquilo que a sua fala torna possível. E essa liberação não é neutra. Ela é uma das formas mais eficazes de legitimar aquilo que, em outras condições, seria imediatamente recusado.
O problema nunca foi o excesso da linguagem. O problema é a ausência de responsabilidade diante dele.
O exagero não falha, ele é método
A crítica mais comum ao discurso político contemporâneo é, ao mesmo tempo, a mais inútil: ele exagera. A constatação vem carregada de um certo alívio moral, como se identificar o exagero fosse suficiente para neutralizá-lo. Não é. O exagero não desqualifica o discurso. Ele o fortalece. Ele não é um desvio da linguagem — é um dos seus modos mais eficientes de operação.
A hipérbole nunca foi um acidente retórico. Ela é técnica. Ela intensifica, seleciona, desloca. Ela retira certos elementos do campo difuso da experiência e os coloca em primeiro plano, conferindo-lhes uma presença que, em condições ordinárias, não teriam. Não se trata de dizer algo maior do que é. Trata-se de fazer com que algo passe a ser percebido como maior do que era. A diferença não é semântica. É política.
Quando se trata o exagero como erro, perde-se o essencial: o fato de que a linguagem não está comprometida, primariamente, com a descrição do mundo, mas com a sua organização. O discurso não entra em circulação para espelhar a realidade. Ele entra para disputar a forma como ela será percebida, interpretada e, no limite, transformada. Nesse sentido, o exagero não compromete o discurso. Ele o radicaliza.
A tradição retórica nunca ignorou isso. Ao contrário, sempre soube que a eficácia da linguagem depende menos da sua fidelidade aos fatos e mais da sua capacidade de produzir adesão. O problema é que, ao longo do tempo, essa dimensão foi sendo deslocada para uma espécie de zona de suspeita moral: o exagero passou a ser visto como manipulação, como desvio, como aquilo que deveria ser corrigido por um uso “mais responsável” da linguagem. Essa leitura não apenas é ingênua. Ela é perigosa.
Porque ao tratar o exagero como falha, abre-se espaço para um erro maior: o de supor que, uma vez identificado o excesso, o discurso perde sua força. Não perde. Ele apenas muda de estatuto. Ele deixa de operar como descrição plausível e passa a operar como horizonte possível. E é nesse deslocamento que sua força se revela com mais clareza.
O exagero não precisa ser verdadeiro para produzir efeitos. Ele precisa ser repetido. Ele precisa ser tolerado. Ele precisa circular sem ser submetido a um teste mínimo de consequência. Quando isso acontece, ele deixa de ser percebido como um excesso isolado e passa a funcionar como um parâmetro implícito de realidade. Não se trata mais de acreditar ou não acreditar. Trata-se de conviver com aquilo como se fosse uma possibilidade legítima.
E é aqui que a leitura moral do exagero entra em colapso. O problema não está em quem exagera. Está em quem trata o exagero como irrelevante. Porque ao fazer isso, transfere-se o discurso do campo da responsabilidade para o campo da permissividade. O que foi dito deixa de exigir resposta. E aquilo que não exige resposta tende a se consolidar.
A linguagem, quando exagera, não está falhando. Está testando limites. Está sondando o que pode ser dito sem custo. Está empurrando as fronteiras do aceitável. E, na ausência de resistência, ela aprende rápido. Aprende que pode ir mais longe. Aprende que o absurdo não precisa ser defendido — basta ser enunciado.
O erro, portanto, não está na hipérbole. Está na interpretação que a reduz a um problema menor. Porque enquanto ela é tratada como excesso, ela já está operando como regra.
O discurso não descreve, ele define o possível
Se o exagero não é erro, então ele precisa ser compreendido pelo que é: uma operação sobre o real. Não no sentido vulgar de distorção, mas no sentido mais preciso de reorganização. O discurso não entra na esfera pública para representar o mundo. Ele entra para disputar quais aspectos desse mundo serão tornados visíveis, relevantes e, sobretudo, aceitáveis.
A tradição retórica sempre soube disso, ainda que nem sempre tenha sido levada a sério. Perelman chamou esse mecanismo de presença: a capacidade do discurso de retirar certos elementos do plano difuso da experiência e colocá-los no centro da percepção. Não se trata de provar algo novo. Trata-se de tornar algo incontornável. O que é repetido com intensidade suficiente deixa de ser apenas uma afirmação e passa a funcionar como estrutura de percepção.
É nesse ponto que o exagero revela sua função mais decisiva. Ele não amplia apenas o conteúdo do que é dito. Ele amplia o espaço do que pode ser considerado plausível. Ao intensificar uma ideia, o discurso não está apenas forçando sua aceitação. Está reconfigurando o campo em que a aceitação ocorre. O que antes era impensável deixa de ser impensável não porque foi demonstrado, mas porque foi colocado em circulação até perder o caráter de exceção.
Aqui entra um deslocamento que costuma passar despercebido. A crítica tradicional ao discurso exagerado pressupõe que a linguagem precisa ser verdadeira para produzir efeitos relevantes. Esse pressuposto é falso. O discurso não precisa ser verdadeiro. Ele precisa apenas não ser interrompido. Precisa apenas operar em um ambiente onde suas consequências não sejam sistematicamente examinadas.
Habermas ajuda a dar precisão a esse ponto, mesmo quando não é lido dessa forma. Todo enunciado carrega pretensões de validade — ele se apresenta como verdadeiro, correto ou legítimo. O problema não é que essas pretensões existam. O problema é quando deixam de ser testadas. Quando o discurso circula sem ser confrontado com suas implicações, ele não perde força. Ele ganha liberdade. E liberdade, nesse caso, significa ausência de custo.
O efeito disso é direto: a distinção entre o que é possível e o que é aceitável começa a se dissolver. Não porque alguém tenha argumentado melhor, mas porque ninguém exigiu que o argumento fosse levado às suas consequências. O discurso deixa de ser avaliado pelo que diz e passa a ser tolerado pelo fato de estar sendo dito.
E aqui está o ponto que costuma ser evitado: a normalização do absurdo não depende de crença. Depende de repetição sem resistência. Depende de um público que, ao invés de perguntar “isso é verdade?”, deveria perguntar “o que isso produz se for levado a sério?” — e não pergunta.
O resultado é um deslocamento silencioso, mas profundo. O discurso exagerado deixa de operar como excesso e passa a operar como referência. Não porque convenceu. Mas porque foi incorporado como possibilidade. E uma possibilidade, quando não encontra limite, rapidamente se transforma em horizonte.
O problema, portanto, não é que certas ideias sejam ditas de forma extrema. O problema é que elas deixam de ser tratadas como exigindo resposta. Porque quando o discurso não encontra resistência, ele não recua. Ele avança.
Não é sobre verdade, é sobre pertencimento
Se o discurso exagerado produz efeitos mesmo quando não é levado como verdadeiro, então o problema não pode ser reduzido à questão da crença. O que está em jogo não é adesão racional. É algo anterior a ela — e mais decisivo. As pessoas não se vinculam a discursos porque eles são convincentes. Elas se vinculam porque se reconhecem neles.
É aqui que a análise muda de eixo. A linguagem não opera, primariamente, no registro da prova. Opera no registro da identificação. Não se trata de apresentar razões suficientes para que alguém aceite uma conclusão. Trata-se de construir um espaço no qual essa conclusão já faça sentido antes mesmo de ser examinada. Kenneth Burke foi direto nesse ponto: a retórica não nasce da unidade, mas da divisão. Ela existe porque os homens não coincidem — e precisa, por isso, criar formas de pertencimento. Identificar não é simplesmente compreender o outro. É tornar-se, de algum modo, consubstancial a ele. Compartilhar um vocabulário, uma sensibilidade, uma forma de perceber o mundo.
O que a hipérbole faz, nesse contexto, é acelerar esse processo. Ela não convence. Ela convoca. Ao intensificar uma ideia, o discurso não está tentando torná-la mais precisa. Está tentando torná-la mais reconhecível para determinados grupos. O exagero funciona como marcador de posição. Ele sinaliza pertencimento antes de qualquer compromisso com a verdade. Quem repete não está, necessariamente, afirmando algo. Está se alinhando.
É por isso que a crítica baseada na “falta de racionalidade” falha sistematicamente. Ela ataca o lugar errado. Supõe que o problema está na fragilidade dos argumentos, quando, na verdade, está na força das identificações. Não é a inconsistência lógica que sustenta esses discursos. É a sua capacidade de organizar um “nós”. E, uma vez estabelecido esse “nós”, o resto se torna secundário.
A verdade pode ser relativizada. A coerência pode ser abandonada. A contradição pode ser tolerada. Nada disso rompe a adesão, porque a adesão não foi construída nesse plano. Ela foi construída no plano da identificação — e identificação não exige consistência, exige continuidade. Aqui está um dos pontos mais incômodos: o discurso não precisa fazer sentido para ser eficaz. Ele precisa apenas fazer sentido para alguém. E isso basta.
Burke é ainda mais duro do que normalmente se admite. A identificação não produz apenas cooperação. Ela pode produzir submissão. Pode produzir aquilo que ele próprio descreve como formas de dedicação que se aproximam da servidão. Porque, uma vez que o indivíduo se reconhece no discurso, ele passa a protegê-lo — mesmo quando o discurso o compromete. Isso explica por que certos enunciados não são abandonados mesmo quando suas consequências são evidentes. Abandoná-los não seria apenas corrigir um erro. Seria romper com um pertencimento. E isso tem custo.
É por isso que o discurso exagerado não precisa ser defendido. Ele precisa apenas ser mantido. A sua função não é provar algo. É sustentar uma forma de vínculo. E aqui o problema se revela com toda a sua gravidade: quando a linguagem deixa de ser tratada como espaço de justificação e passa a operar exclusivamente como espaço de identificação, o conflito deixa de ser resolvido no plano dos argumentos. Ele se desloca para o plano das lealdades.
A partir daí, não se discute mais o que é dito. Discute-se quem disse. E, sobretudo, de que lado se está. O exagero, nesse cenário, não é ruído. É sinal. Ele indica, com precisão brutal, onde cada um se coloca.
E, uma vez que o discurso passa a operar assim, a exigência de verdade deixa de ser central. O que passa a importar é a estabilidade do vínculo. E vínculos, quando protegidos contra a crítica, tendem a se tornar impermeáveis à realidade. O problema, portanto, não é que o discurso se afaste da verdade. É que ele se torne independente dela.
O absurdo vence quando ninguém responde
Se o discurso não depende da verdade para operar, se ele se sustenta por identificação e se expande por repetição, então a questão central deixa de ser o conteúdo do que é dito. A questão passa a ser: quem responde pelas consequências do que circula? A resposta contemporânea, na prática, é simples: ninguém. O discurso se autonomizou da responsabilidade. Ele passou a existir como se fosse apenas expressão — opinião, exagero, retórica — algo que pode ser dito sem que se exija, em contrapartida, um compromisso com aquilo que se torna possível a partir dele. Essa separação é uma ficção conveniente. E, ao mesmo tempo, profundamente funcional.
Habermas nunca tratou a linguagem como algo neutro. Falar é levantar pretensões. É se expor à exigência de justificar o que se diz. Mas isso pressupõe um ambiente em que tais pretensões sejam efetivamente testadas. Quando esse ambiente colapsa, o discurso não perde força. Ele perde limite. O resultado é um deslocamento silencioso: a fala deixa de ser um ato que exige resposta e passa a ser um gesto que apenas ocupa espaço. Não se cobra mais coerência. Não se exige mais consequência. O que se diz deixa de comprometer quem diz. E quando o discurso deixa de comprometer, ele se torna perigoso.
Arendt percebeu isso antes que se tornasse evidente. O problema não é a mentira isolada. É a erosão da distinção entre fato e ficção. Quando essa distinção se dissolve, o absurdo não precisa mais se justificar. Ele passa a coexistir com o real sem conflito. E o que não entra em conflito não é enfrentado. Esse é o ponto que costuma ser ignorado: o discurso mais perigoso não é aquele em que se acredita cegamente. É aquele que ninguém leva a sério o suficiente para confrontar. Ele não mobiliza rejeição. Ele não provoca ruptura. Ele apenas se instala. E uma vez instalado, ele reorganiza o campo do possível.
Snyder, olhando para processos históricos concretos, mostrou isso de forma direta: o caminho para a ruptura institucional não começa com adesão massiva a ideias extremas. Começa com a sua tolerância. Começa quando elas deixam de ser tratadas como inaceitáveis e passam a ser tratadas como “apenas retórica”. Esse é o erro decisivo. Porque o discurso não precisa ser implementado para produzir efeitos. Ele precisa apenas preparar o terreno. Ele precisa apenas tornar certas ações pensáveis sem escândalo. E, quando isso acontece, a transição do impensável para o executável deixa de ser um salto. Vira continuidade.
É aqui que a responsabilidade retorna — mas já tarde. Quem tratou o exagero como irrelevante ajudou a deslocar o limite do aceitável. Quem riu, relativizou ou ignorou contribuiu para a estabilização do que, antes, seria imediatamente recusado. Não há neutralidade nesse processo. Há participação. O problema, portanto, nunca foi apenas o que é dito. Foi a forma como se escolheu não responder ao que foi dito. E isso exige uma inversão que não é confortável.
Não basta perguntar se um discurso é verdadeiro. Não basta apontar suas inconsistências. É preciso fazer a pergunta que foi abandonada: o que acontece se isso for levado a sério? Porque toda fala, mesmo a mais absurda, carrega um vetor de realidade. Toda enunciação abre um campo de possibilidade. E toda possibilidade, quando não encontra limite, tende a se realizar. A linguagem nunca foi inocente. O que mudou foi a disposição de tratá-la como se fosse.

